Quando iniciamos a prática da meditação, muitos de nós nos deparamos com um desafio silencioso e quase invisível: o autojulgamento. Sentamos com a intenção de silenciar a mente, de encontrar um espaço de paz interior, mas logo surgem pensamentos que nos cobram, avaliam e até mesmo criticam cada passo do processo. A mente traz frases como “Não consigo”, “Não estou fazendo direito”, “Minha mente está agitada demais para isso”.
No fundo, todos queremos aprender a meditar para experimentar mais equilíbrio e clareza no dia a dia. Mas, ironicamente, o esforço para sermos “bons meditadores” pode alimentar justamente aquilo que a meditação propõe suavizar: o julgamento constante de si mesmo. Afinal, como é possível observar a mente se estivermos o tempo todo nos apontando defeitos?
Por que o autojulgamento aparece ao meditar?
Em nossa experiência, o autojulgamento nasce das expectativas e comparações. Ao começar qualquer prática nova, é comum nos compararmos com ideias pré-concebidas do que significa fazer aquilo “certo”. Essas imagens internas podem vir de livros, relatos de outras pessoas ou até da nossa própria imaginação. O problema é que, ao estabelecer um padrão rígido, alimentamos a sensação de inadequação.
O autojulgamento surge quando confundimos progresso com perfeição na meditação.
Além disso, vivemos em uma cultura que valoriza o desempenho e os resultados imediatos. Queremos avançar rápido, medir progresso e obter algum tipo de “retorno”. No entanto, a meditação pede paciência, abertura e uma disposição para vivenciar cada sessão tal como ela se apresenta, sem esperar que a mente se acalme completamente ou que sensações agradáveis surjam.
Reconhecendo sinais de autojulgamento durante a meditação
Perceber quando estamos nos julgando é o primeiro passo para cultivar uma prática mais gentil. Em nossas práticas, observamos alguns sinais frequentes:
- Pensamentos repetitivos de inadequação (“Não estou conseguindo”, “Deveria estar mais concentrado”).
- Comparações com outras pessoas reais ou imaginárias.
- Sensação de frustração ao notar distrações ou inquietações mentais.
- Desejo de abandonar a prática por achar que não foi suficiente ou “boa”.
Quando notamos qualquer um desses sinais, temos a chance de colocar em prática um aspecto fundamental da meditação: o acolhimento.

Abordando o autojulgamento com compaixão
Ao identificar o autojulgamento, sugerimos um caminho simples: acolher, nomear e redirecionar a atenção.
Em vez de alimentar críticas internas, aprendemos a reconhecer com gentileza os momentos em que nos julgamos.
Funciona mais ou menos assim:
- Durante a meditação, ao perceber um pensamento autocrítico, paramos e, sem brigar com ele, apenas o nomeamos em silêncio (“Julgamento” ou “Crítica”).
- Respiramos fundo e reconhecemos que, em algum nível, buscar o melhor faz parte da experiência humana, mas não precisa definir a prática.
- Redirecionamos a atenção para o momento presente – pode ser a respiração, uma sensação física ou o som ao redor – sempre com gentileza.
Não é sobre afastar pensamentos, mas aprender a conviver com eles.
O papel da expectativa e da comparação
Em nossa trajetória, percebemos que as expectativas exageradas dificultam o processo meditativo. Quando achamos que precisamos “parar de pensar” imediatamente ou atingir um estado de ausência total de pensamentos, criamos solo fértil para autojulgamento.
Por isso, indicamos que o objetivo principal seja apenas estar presente – do jeito que for possível naquele momento. Se vêm pensamentos, acolhemos. Se surge inquietação, aceitamos. Toda experiência, inclusive a dificuldade, faz parte da prática.
Comparações também costumam alimentar julgamentos internos. Cada pessoa tem seu ritmo de adaptação. Às vezes, um dia meditamos com mais tranquilidade, no outro estamos com a mente agitada. Isso é natural e não representa retrocesso.
Como cultivar gentileza na prática?
Existem formas práticas de desenvolver uma atitude mais gentil consigo mesmo durante a meditação:
- Intenção antes de começar: Antes de iniciar sua sessão, crie uma intenção clara de autoacolhimento. Algo como: “Hoje vou me permitir sentir o que vier, sem tentar corrigir”.
- Observe sem se identificar: Ao notar pensamentos autocríticos, observe como se assistisse um filme. Eles aparecem, mas não precisam ser levados tão a sério.
- Respirações conscientes: Sempre que perceber que entrou em um ciclo de julgamentos, faça três respirações profundas e retome o foco.
- Diálogo interno positivo: Substitua frases negativas por outras mais encorajadoras, como: “Estou aprendendo, cada dia é diferente”.
- Finalize com gratidão: Ao terminar, agradeça a si mesmo pela dedicação, mesmo que tenha sido breve ou desafiadora.
Gentileza não é tolerância com distrações, mas sim aceitação do processo real, com suas imperfeições.

Identificando autocrítica automática
Muitas vezes, o autojulgamento se apresenta de forma automática, quase imperceptível. Ele já está presente em outros aspectos da vida e simplesmente se manifesta também na meditação. Por isso, avaliar o discurso mental que usamos conosco é útil além da prática meditativa. Podemos, por exemplo, perceber frases do tipo:
- “Sou distraído demais.”
- “Não nasci para isso.”
- “Nunca vou conseguir meditar de verdade.”
Nesses momentos, podemos respirar, acolher o que sentimos e, gentilmente, atualizar o discurso interno para algo mais honesto e encorajador.
Desapegar-se de resultados imediatos
Em nossa experiência, meditar sem esperar resultados imediatos nos ajuda a ficar menos rígidos com a própria prática. Resultados aparecem – maior calma, clareza ou bem-estar – mas não de forma linear nem previsível. Quando nos desapegamos dos resultados, criamos espaço interno para vivenciar o processo com mais leveza.
Meditação é um encontro, não uma corrida.
A consistência e a gentileza, aos poucos, dissolvem o hábito do autojulgamento. O mérito está em manter o compromisso, não em atingir um estado ideal.
Quando buscar apoio faz sentido?
Se notarmos que o autojulgamento na meditação está muito intenso, trazendo desconforto ou até alimentando ansiedade, pode ser bom conversar com pessoas experientes ou buscar grupos de prática. Compartilhando experiências, percebemos que muitos passam pelos mesmos desafios, o que ajuda a dissolver a impressão de isolamento e fracasso.
No fim, cada um constrói sua relação com a prática meditativa de modo único. O mais importante é não desistir diante do autojulgamento, mas sim entender que ele faz parte da construção de uma presença mais íntima e acolhedora consigo mesmo.
Conclusão
Evitar o autojulgamento ao aprender a meditar passa por reconhecer expectativas exageradas, cultivar gentileza consigo mesmo e aceitar a riqueza das experiências, sejam elas tranquilas ou desafiadoras. Ao praticar o acolhimento, nomear os julgamentos e redirecionar a atenção para o momento presente com suavidade, transformamos a meditação em um espaço de autocompaixão e descoberta, não mais em um campo de batalha interno.
Perguntas frequentes sobre autojulgamento na meditação
O que é autojulgamento na meditação?
Autojulgamento na meditação é o hábito de avaliar ou criticar a si mesmo durante a prática, acreditando que não está meditando “certo”. Isso se manifesta em pensamentos autocríticos que surgem enquanto tentamos focar ou acalmar a mente.
Como evitar pensamentos autocríticos ao meditar?
Uma estratégia eficaz é identificar esses pensamentos assim que surgem, nomeá-los de forma neutra e, gentilmente, redirecionar a atenção para a respiração ou para as sensações presentes. Podemos praticar frases de acolhimento interno e lembrar que cada prática é uma oportunidade para aprender e acolher a si mesmo.
Por que me julgo durante a meditação?
O autojulgamento costuma surgir porque carregamos expectativas e padrões rígidos sobre como a meditação deveria ser. Nossa cultura de cobrança e comparação reforça a ideia de que é preciso fazer tudo perfeitamente, o que não se aplica à meditação.
Autojulgamento atrapalha a prática meditativa?
Sim, pois gera ansiedade, frustração e aumenta a dificuldade de se concentrar ou relaxar. O mais saudável é reconhecer esses pensamentos, acolher o que sente e seguir praticando. Lentamente, a prática se torna mais agradável e menos aprisionada por julgamentos.
Quais dicas para meditar sem se julgar?
Algumas dicas são: estabelecer uma intenção de gentileza antes de começar, observar os pensamentos sem se identificar com eles, fazer pausas para respirações profundas, substituir frases negativas por encorajadoras e terminar a prática com gratidão pelo tempo dedicado.
